Samuel Rawet - In Memoriam

Nasceu em Klimontow, na Polônia, a 23 de julho de 1929. Imigrou para o Brasil em 1936. Aprendeu o português como poucos brasileiros.

Era Engenheiro e veio para Brasília em 1963, onde trabalhou com Joaquim Cardozo, famoso calculista e também poeta. Fez os cálculos para inúmeros prédios em Brasília.

Na área literária foi contista, novelista, teatrólogo e ensaísta.

Pertenceu à Associação Nacional de Escritores, fundada em 21 de abril de 1963, por Almeida Fischer. Entrou, para a ANE, em 13 de março de 1965, em sua primeira Reunião de Diretoria.

Samuel Rawet faleceu a 25 de agosto de 1984.

Era uma pessoa muito introvertida. Com o passar do tempo tornou-se até esquisita. Andava pelas ruas de Brasília, de short, com chinelo e uma gaiola na mão. Quando lhe perguntavam o que iria fazer com a gaiola, respondia: Vou pegar rato judeu.

Samuel Rawet era judeu.

Deixou uma obra muito significativa:

- participou da Antologia Contistas de Brasília, organizada por Almeida Fischer;
- de obra sua temos:

No livro Literatura Brasiliense , de Wilson Pereira, traz o seguinte comentário sobre Contos do Imigrante:

"Samuel Rawet começou a adquirir notoriedade primeiro como crítico de teatro e depois como autor de peças teatrais, mas acabou ficando conhecido e consagrado na literatura brasileira contemporânea como contista. Começou publicando contos nas principais revistas e jornais literários do País, tendo conquistado alguns prêmios importantes em concursos literários. E é como contista que se apresenta em livro ao público.

Anotamos da orelha do volume editado pela José Olympio Editora o seguinte comentário, sem assinatura, sobre a obra: "Contos de Imigrante são a experiência de toda uma comunidade humana em conflito com um meio, não necessariamente hostil, porém sempre estranho; mas retratam, sobretudo, os conflitos internos, os problemas de inadaptação dentro da própria colônia - que nos levam a dramas como o descrito em "O Profeta", uma das histórias mais duras deste volume (...).

Há em todos os contos, o empenho férreo de obrigar o leitor a pensar, linha por linha, a entender o trabalho como um todo, dir-se-ia mesmo um desafio a que ele penetre a zona de luz por trás da aparente obscuridade da narração. Algumas situações, é claro, não podem ser compreendidas em toda a extensão a não ser ser por quem conheça, ao menos superficialmente, certos hábitos e tradições judaicas. Nada impede, no entanto, que Samuel Rawet -teatrólogo - descerre para qualquer leitor a cortina de um palco onde se desenrola um drama, não de todo novo, pois vem de séculos, mas apanhado em muitos de seus ângulos desconhecidos.

Eis que é um mundo amargo e fascinante, esse dos Contos do Imigrante, com sua poesia heróica, sua tragédia anônima, seu desespero surdo (...)."

Os textos deste livro são densos, revelando o essencial da vida, com as conotações psicológicas e existenciais que retira dos fatos, para sugerir ao leitor o mundo conflituoso profundamente humano de seus personagens.

Numa visão genérica sobre a obra de Samuel Rawet, Assis Brasil, em seu Dicionário Prático da Literatura Brasileira, pág. 287, assim resume: "Ele trabalha uma linguagem artística sensível, cujo suporte conteudístico é o homem com seus conflitos universais: a angústia, a morte, o amor, seus valores éticos. Seu conto é uma peça acabada, homogênea, onde a trama tem importância secundária, para que ressaltem a reflexão e as perguntas inquietantes sobre a condição humana." ( páginas72-74)

Wilson Pereira é professor universitário e escritor.

No livro Diálogo há um Prefácio de Renard Perez:

"Não temos dúvida em afirmar: um dos livros mais importantes, na área de ficção, que nos dava o ano de 1956, e isso pelo que ele trazia de contribuição nova no terreno do estilo e da técnica, bem como na abordagem dos problemas que sua temática implicava - eram os Contos do Imigrante. Assinava-o um jovem estreante de 27 anos, brasileiro nascido na Polônia e de origem judaica: Samuel Rawet. Era, aliás, o problema da adaptação dos de sua raça num mundo novo, e os conflitos dela decorrentes na esfera social e sobretudo familiar, o que a obra focalizava. O drama, sobretudo, da incompreensão, apresentado em aspectos pungentes, tendo em vista os ângulos que o autor corajosamente enfrentava. Não era um livro fácil, nem na forma nem no fundo. Este, aliás, um dos aspectos para que chamava atenção o crítico Fausto Cunha, apresentando a obra (numa orelha não assinada): "o leitor, acostumado à maneira fácil e fluente da maioria dos nossos contistas, de certo estranhará muita coisa neste livro". E se referia, entre outras coisas, ao "estilo por vezes hermético, à linguagem sincopada, a trama aparentemente fugidia "ou ainda aos "planos alternados que usa com freqüência, a fusão que opera, à miúde, entre a realidade e a memória, a retomada intermitente do leit-motiv, a pontuação psicológica altamente carregada". E acrescentava: "Há, em todos os contos, o empenho férreo de obrigar o leitor a pensar linha por linha, a entender o trabalho como um todo, dir-se-ia mesmo um desafio a que ele penetre a zona de luz por trás da obscuridade da narração".

Era, aquela, uma apresentação das mais felizes, pois, adiantando que o mundo que nos mostrava o contista era "um mundo amargo e fascinante, com sua poesia heróica, sua tragédia anônima e seu desespero surdo", enfim, um livro de cuja leitura "saímos um pouco chamuscados", ela definia exatamente a literatura de Samuel Rawet. Uma literatura difícil e amarga, sim, mas uma grande literatura.

Venturosamente, o volume foi notado, sua importância e excelência apreendidas. Sobre os Contos do Imigrante falaram alguns dos maiores nomes de nossa literatura. Inclusive Tristão de Athayde que, voltando por um momento à crítica, e se referindo à prosa neomodernista como "começo de alguma coisa nova no curso de nossos contistas, aliás o jovem e notável estrante Samuel Rawet, com seus já tão discutidos Contos do Imigrante, se encontra nitidamente nesta linha."E falava do que esse livro representava, "como contribuição original".

Agora, sete anos depois, volta Samuel Rawet com novo livro de contos: este Diálogo, que, como o anterior, tivemos a honra de ver nascer e crescer, e que agora temos o prazer, não menor, de apresentar. Como os Contos do Imigrante é um livro difícil. Na verdade, o escritor não mudou muito nesse intervalo, pelo menos não transigiu um milímetro em sua literatura. O que aconteceu foi, somente, a sua depuração. Se já não existe aqui, como constante, a temática do imigrante, os dramas da incompreensão, básicos em sua literatura, subsistem - agora, até, numa dimensão maior e mais trágica. Porque desta vez é o drama da incompreensão do Homem, desligado daqueles elementos circunstanciais.

Falamos em depuração. Na verdade, neste livro como que o autor ainda mais se despoja, não apenas na parte formal, mas também, e sobretudo, no conteúdo. Se naquela - mantidos ainda, em princípio, os mesmos elementos básicos de técnica e estilo - procura e atinge o núcleo, numa economia de meios que dá a essas páginas uma idéia de descarnamento que é principalmente pureza, a história se liberta de todos os acessórios para fixar-se na sua essência mesma, para, nua, terrível essência. Como o pintor que, figurativo, despojando-se cada vez mais do supérfluo, acabasse insensivelmente no abstrato, temos o drama no seu fulcro, a tragédia em si, na sua força cósmica. Daí o clima de paroxismo a que chega a revolta dos personagens desses contos , na sua ruminação castigada. O drama do cansaço gerado pelo grito sem ressonâncias. E a revolta que borbulha surdamente, e que, se às vezes jamais sobe à tona, pode súbito impelir aos gestos extremos.

Se, no volume anterior, havia ainda vagas frestas de luz, esta nova obra não nos dá a menor contemplação. É um livro amargo da primeira à última página, porque a compreensão nunca se realiza. Para o autor, o "diálogo" não existe."

RENARD PEREZ

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